Cerca de 95% dos aplicativos infantis para crianças menores de 5 anos contém algum tipo de publicidade, segundo um estudo publicado no Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics. O estudo foi feito a partir de 135 apps e foi liderado pelo Hospital Infantil CS da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

Dos apps estudados, a categoria “Educacional” estava inclusa. Um terço dos apps analisados tinham a experiência interrompida por vídeo ads; nos apps grátis, ocorreu em mais da metade. Propagandas ou publicidade em banners apareceu em 17% de todos os apps e em 27% dos apps grátis.

Se questione sobre o que seus filhos consomem

Você sabe o que seus filhos estão consumindo nos aplicativos, incluindo as propagandas que aparecem? Ainda que existam filtros onde propagandas violentas não apareçam, você já parou para pensar na quantidade de produtos que são oferecidos para seus filhos?

Como desenvolvedores de aplicativos, sabemos que as empresas precisam lucrar com o produto. Mas precisamos analisar a coerência: é coerente que um aplicativo que ensina crianças em idade pré-escolar a ler ou a contar deixe seu público exposto à publicidade que incentiva o consumismo?

Mães e pais, não vejam somente o conteúdo produzido pelo aplicativo. Analise todo o conteúdo do app, incluindo as propagandas. Se você não concorda com o tipo de publicidade que contém no aplicativo, no canal de televisão ou no canal do YouTube, ou ainda a forma com que é feita a publicidade, troque de canal, dê outra alternativa de programa ou aplicativo para seu/sua filho/a utilizar.

Será que sai mais caro pagar por um app sem propagandas, ou deixar as crianças expostas aos ads?

Vamos às contas: se considerarmos um aplicativo onde as crianças precisam passar de fases, onde uma propaganda é mostrada a cada fase nova ou que a criança repete, e cada fase dura em média 3 minutos. Ao final de 1h de uso, que é o máximo recomendado por médicos para crianças de 2 a 5 anos de idade, a criança teria sido exposta a 20 propagandas. A mesma conta pode ser utilizada para plataformas de compartilhamento de vídeos.

Reflita sobre o assunto: o que você acha do seu/sua filho/a assistir tanta publicidade? Você contava com isso toda a vez que dá o celular ou tablet para que seu/sua filho/a utilize um app ou assista a um vídeo?

Publicidade e novas mídias

Com as redes sociais, youtubers e a vida tecnológica, a publicidade foi conquistando espaço no novo meio de forma diferente ao que funciona na TV. Por causa disso, surgiram vários casos de publicidade velada, apesar de ser ilegal antes mesmo da nova Lei Geral de Proteção de Dados Brasileira, segundo o artigo 36 do Código de Defesa do Consumidor de 1990.

Publicidade velada é quando uma publicação tem caráter publicitário mas não consta que é uma parceria paga. Isso ocorre em vídeos do YouTube, quando o youtuber falar sobre algum produto de forma sutil no meio do vídeo sem avisar que é publicidade paga, por exemplo.

Vale lembrar que a publicidade velada é proibida para qualquer público alvo, mas no caso da publicidade infantil é ainda mais sério por que crianças até 9 anos cognitivamente ainda não sabem separar o que é publicidade e o que é conteúdo.

:: TikTok: O que você precisa saber sobre a rede social popular entre crianças e adolescentes ::

Diálogo

Nosso objetivo aqui é conscientizar. Sabemos que o mundo é cheio de propagandas, publicidade e marketing, e que não podemos criar nossos filhos dentro de uma bolha. Mas é preciso pensar na quantidade e na qualidade da publicidade que as crianças consomem para, então, dialogar sobre publicidade e consumismo com elas.

De nada adianta blindar nossos filhos nos primeiros anos da infância para, quando começarem a escola no primeiro ano, se depararem com um mundo de propagandas na rua, na sala de aula, na casa dos amiguinhos, e não saberem o que é ou como lidar com tudo isso.

Quanto menos oferecermos publicidade para crianças, melhor, mas ela está em todo o lugar. Por isso, saiba quais os tipos de propagandas que seus filhos consomem e converse com eles sobre isso. Mais poderoso que privar, é conscientizar, e o diálogo é a forma mais poderosa de conscientização.

Explot e publicidade infantil no BIG Festival 2019

Luiza Guerreiro, a CEO da Explot, participou de uma mesa no BIG Festival sobre o assunto. A mesa Publicidade Infantil: O que pode e o que não pode no Brasil e na Europa aconteceu dia 29 de junho e foi mediada por Vicente Vieira, diretor de negócios da Manifesto Games. Thaís Nascimento Dantas, do Instituto Alana, e Renato Leite Monteiro, da Data Privacy Brasil, que ajudou a compor a Lei Geral de Proteção de Dados Brasileira, também fizeram parte da mesa trazendo informações importantes sobre o que mudou com a nova lei e um panorama geral de como a publicidade infantil funciona no Brasil. Todos discutiram sobre casos ruins de publicidade infantil, casos que estão no limite da lei, mas que não são vistos com bons olhos, e casos que estão dentro do aceitável.